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quarta-feira, 21 janeiro , 2026

Trump e a perseguição aos imigrantes: a história que os EUA fingem não reconhecer

Os Estados Unidos gostam de se apresentar ao mundo como a terra da liberdade, das oportunidades e da diversidade. Mas essa narrativa já não se sustenta — e talvez nunca tenha se sustentado completamente. O governo Trump, com sua nova cruzada contra imigrantes, expôs o que sempre esteve nas margens da história americana: um país construído por estrangeiros que agora mira sua violência justamente sobre aqueles que refletem sua própria origem. A suspensão total dos pedidos de imigração de 19 países não europeus, somada à retórica abertamente racista e às táticas brutais do ICE, revela um país que repete, com assustadora naturalidade, ecos de um passado que jurou combater. É impossível ignorar o paralelo: demonizar grupos inteiros, criar bodes expiatórios, justificar perseguições sob o pretexto de “segurança nacional”. Os Estados Unidos caminham perigosamente por uma estrada que lembra, mais do que gostariam, a Alemanha dos anos 1930.

Um país feito por imigrantes que agora escolhe quem merece existir

É uma ironia grotesca que os EUA — uma nação que só existe porque milhões de imigrantes chegaram a suas costas fugindo de guerras, fome e perseguições — agora decidam que afegãos, somalis, sudaneses, haitianos e venezuelanos não são “bem-vindos”. Ainda mais grotesco é que essa política seja liderada por um presidente cuja própria linhagem remonta à imigração recente: a mãe de Trump era escocesa, seu avô era alemão. A família que hoje ergue muros é a mesma que ontem atravessou fronteiras.

O argumento da “segurança nacional” é um véu fino que mal esconde o que se tornou evidente: trata-se de uma política baseada em raça, origem e religião. A lista de países suspensos não envolve europeus, não envolve nações cristãs brancas — envolve povos do Sul Global, de países historicamente associados, pela ótica colonial, ao atraso, à pobreza e ao perigo. É discriminação institucionalizada. É xenofobia transformada em decreto. E é racismo, ainda que disfarçado de burocracia.

A máquina de perseguição: quando o Estado decide quem é inimigo

As cenas dos últimos meses — agentes mascarados arrastando mulheres, separando famílias, imobilizando imigrantes no chão de tribunais, invadindo casas e fábricas — não são isoladas. São o método. São o projeto. O ICE opera hoje com a lógica de uma polícia política, com táticas cada vez mais militarizadas, incentivadas por metas de deportação e pela retórica inflamável da Casa Branca.

Quando Trump chama somalis de “lixo”, quando ridiculariza países inteiros, quando atribui crimes a coletividades, ele está fazendo mais do que discurso político: está autorizando a violência. Está transformando pessoas — famílias, trabalhadores, crianças — em inimigos a serem eliminados. Já vimos isso acontecer antes. Sabemos onde esse tipo de narrativa leva.

A Alemanha nazista não começou com câmaras de gás; começou com palavras. Com desumanização. Com decretos que classificavam grupos como perigosos, indesejáveis, incompatíveis com o “bem-estar nacional”. A história se repete menos como metáfora e mais como alerta.

A imigração proibida para pobres e garantida para ricos: a hipocrisia institucionalizada

Se toda essa máquina de perseguição fosse realmente sobre segurança nacional, coerência política ou proteção dos cidadãos americanos, talvez ainda restasse espaço para debate. Mas a verdade se torna escancarada quando observamos o contraste entre a criminalização de imigrantes pobres e a criação de um fast-track milionário para quem pode pagar o preço de entrada. Enquanto afegãos, somalis, haitianos e venezuelanos são tratados como ameaça existencial ao país, o governo Trump abre as portas — e estende o tapete vermelho — para bilionários estrangeiros através do Trump Gold Card.

O programa, ainda em disputa constitucional, propõe que qualquer investidor que coloque US$ 5 milhões em projetos americanos receba um caminho acelerado para residência e eventual cidadania. Não há entrevistas humilhantes, não há agentes mascarados arrastando ninguém pelo corredor de um tribunal, não há operações com tropas da Guarda Nacional. Basta assinar o cheque.

Mais do que isso: o Gold Card promete um benefício fiscal que escancara a desigualdade como política de Estado. Diferente do programa EB-5 — já existente —, o Gold Card isentaria seus portadores de pagar imposto de renda federal sobre ganhos obtidos fora dos EUA. Em outras palavras: um afegão que ganha salário mínimo nos EUA pode ser deportado por “ameaça à segurança”; um multimilionário chinês, russo ou saudita que gere fortunas no exterior pode viver no país sem contribuir um centavo ao sistema tributário federal.

É a imigração convertida em produto de luxo. Uma cidadania que se compra, enquanto famílias inteiras são destruídas por não terem o documento certo no bolso. A Constituição norte-americana nunca imaginou que o Executivo pudesse, sozinho, redesenhar leis tributárias para privilegiar um microgrupo de ultrarricos — mas o governo Trump aposta justamente nesse vazio para transformar o país em um condomínio fechado onde só entra quem pode pagar a taxa de associação.

A lógica é brutalmente simples: pobres são ameaça; ricos são bem-vindos.

E essa é precisamente a essência dos regimes que tratam pessoas como mercadorias.

O paralelo histórico é inevitável. Hitler perseguia judeus, ciganos e opositores — mas mantinha laços estreitos com empresários e industriais que financiavam seus projetos, garantindo-lhes privilégios enquanto demonizava todo um grupo social. Trump segue o mesmo roteiro: cria uma classe de “imigrantes aceitáveis” — brancos, ricos e úteis economicamente — ao mesmo tempo em que transforma imigrantes pobres em bodes expiatórios para justificar políticas autoritárias.

Não se trata de imigração. Trata-se de seleção racial e econômica.
Quem é visto como humano depende de quanto dinheiro possui.

O silêncio cúmplice de um país que escolhe não ver

É um absurdo — moral, histórico e humano — que grande parte da sociedade americana assista a tudo isso com indiferença. O país que se orgulha de combater o nazismo no século XX hoje normaliza práticas que ecoam aquele mesmo espírito: justificar brutalidade em nome da segurança, usar o medo como ferramenta de controle, transformar vizinhos em vigilantes e suspeitos.

Pior: o discurso público se acostuma à ideia de que deportações em massa são “proteção”; que mascarar agentes federais é “prudência”; que prender trabalhadores é “cumprir a lei”. Quando a violência se torna rotina, ela deixa de chocar — e é aí que o autoritarismo se instala com mais facilidade.

A comparação com Hitler não é exagero retórico; é uma advertência histórica. Sempre que um governo identifica um grupo inteiro como ameaça por sua origem, etnia ou religião, ele abre o caminho para perseguições que, cedo ou tarde, extrapolam qualquer limite civilizatório.

O mito da segurança para justificar o inimaginável

Nenhum dado sustenta a tese de que esses imigrantes são os “piores dos piores”. Pelo contrário: mais de 75% das pessoas detidas pelo ICE não têm qualquer condenação criminal grave. São trabalhadores de fábricas, estudantes, mães, pais — gente comum, transformada em alvo político. A violência estatal, que deveria ser exceção, tornou-se ferramenta de propaganda.

A suspensão de green cards e cidadania — algo sem precedentes na história moderna dos EUA — mostra que a meta não é segurança, mas exclusão. Não é proteção, é segregação. E quando um país começa a selecionar quem pode ou não entrar, viver e existir com base em critérios étnicos, religiosos ou geopolíticos, ele assume seu lugar ao lado dos regimes mais sombrios da história.

A memória curta de uma nação que insiste em repetir seus erros

A perseguição aos imigrantes é, antes de tudo, um apagamento histórico. Os Estados Unidos só se tornaram potência porque receberam estrangeiros — inclusive aqueles vistos como indesejáveis em outras épocas. Irlandeses foram demonizados. Italianos foram marginalizados. Judeus foram rejeitados na fronteira durante a Segunda Guerra enquanto fugiam da morte. E agora o país repete o mesmo gesto cruel, recusando-se a aprender.

A grande diferença é que, desta vez, o mundo está vendo. E a história está registrando.

O fim da ilusão: a América não é o que afirma ser

A romantização dos EUA como nação justa, acolhedora e moralmente superior precisa acabar. O país que se vende como símbolo de liberdade está perseguindo exatamente aqueles que um dia o construíram. O governo Trump não está “protegendo” o país; está destruindo seus próprios valores fundacionais. E está fazendo isso com aplausos de uma parcela da população que escolheu o medo em vez da humanidade.

Não existe liberdade em um sistema que arrasta famílias para fora de suas casas.
Não existe justiça em um país que suspende direitos com base na origem.
Não existe democracia onde o Estado seleciona quem merece viver sem medo.

Está na hora de reescrever a descrição da América. Ela não é o sonho; é o pesadelo de quem tenta sobreviver dentro de suas fronteiras. E, se quisermos evitar que o século XXI repita os erros mais vergonhosos do século XX, precisamos parar de suavizar o que está acontecendo e nomear pelo que é: perseguição, racismo e autoritarismo.

Os EUA não estão se protegendo de imigrantes.
Eles estão se protegendo da própria consciência

Julio Medeiros

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