Opinião

O braço erguido

O voto parece um gesto pequeno. Sócrates ensinou que um braço erguido, sozinho, também pesa — e que democracia se constrói em gestos repetidos, teimosos e coletivos.

Por Julio Medeiros
4 de outubro de 2026 · 3 min de leitura
Foto: Reprodução/Corinthians

O voto costuma ser descrito como um gesto pequeno: um minuto na cabine, alguns números digitados, um barulho de confirmação — e pronto, de volta para casa. Um entre mais de 150 milhões. Uma gota no oceano. Mas essa narrativa não se sustenta. E quem mais lucra com ela é justamente quem prefere que você fique em casa.

Em 2022, mais de 30 milhões de brasileiros não apareceram no primeiro turno. A abstenção não faz campanha, mas elege. A cadeira vazia na seção eleitoral não fica vazia no Congresso: alguém senta nela — e esse alguém agradece a quem não foi.

Ganhar ou perder, mas sempre com democracia

Em 1982, com o Brasil ainda sob a ditadura, um time de futebol resolveu fazer o que o país inteiro estava proibido de fazer: decidir pelo voto. Na Democracia Corinthiana, o voto do roupeiro valia o mesmo que o do craque. Concentração, contratação, horário de treino — tudo passava pela mão levantada de cada um.

Naquele mesmo ano, o Corinthians entrou em campo com “Dia 15 vote” estampado na camisa, na primeira eleição direta para governador em quase duas décadas. Na final do Paulista de 1983, a faixa dizia: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. E Sócrates, a cada gol, erguia o braço com o punho cerrado.

Aquele gesto não era comemoração. Era recado. Um homem, sozinho, braço levantado diante de um estádio inteiro, dizendo que o pequeno também pesa. No ano seguinte, o Doutor subiu no palanque das Diretas Já e prometeu ficar no Brasil se a emenda passasse. A emenda caiu; Sócrates partiu. Mas a lição ficou: a democracia não se ganha num ato heroico — ganha-se em gestos repetidos, teimosos, coletivos.

O voto não é um favor; é uma cobrança

Votar não encerra o trabalho do eleitor. Começa. O mandato é uma procuração, e procuração se fiscaliza. Quem elege e esquece entrega um cheque em branco a quem só aparece de quatro em quatro anos.

Por isso o voto precisa vir acompanhado de memória. Memória de quem prometeu e não entregou, de quem votou contra o que defendia no palanque, de quem tratou o cargo como negócio de família. Representação não é um presente que o político dá ao povo; é um serviço que o povo contrata — e que tem o direito de demitir.

Um país soberano começa na urna

Nenhum país é respeitado lá fora se não se respeita aqui dentro. Soberania não se decreta; constrói-se — com instituições que funcionam, com representantes cobrados, com um povo que não terceiriza o próprio destino. Uma nação que abre mão de escolher deixa que escolham por ela. E sempre haverá quem se ofereça para isso.

Os últimos anos mostraram ao Brasil o quanto a democracia pode ser frágil — e o quanto ela resiste quando muita gente decide não largar. Este pleito é parte dessa história. Não é um capítulo qualquer. É o país decidindo se quer ser dono de si.

O fim da ilusão

A romantização da indiferença precisa acabar. Não há voto inútil; há voto não dado. Não há eleitor pequeno; há eleitor que acredita ser pequeno. E não há democracia que sobreviva a um povo que desistiu de levantar a mão.

Está na hora de reescrever a descrição do voto. Ele não é um ritual; é resistência. Se quisermos um Brasil soberano, respeitado e cobrado por quem o sustenta, precisamos, antes de tudo, aparecer.

As urnas estão abertas.
O braço erguido é o seu.

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