A leitura que se espalhou depois de 4 de outubro é simples: o Brasil escolheu a direita, e quem venceu tem o direito de fazer o que quiser. Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O PL elegeu 19 senadores e chegará a fevereiro de 2027 com 28 cadeiras no Senado e 121 na Câmara, as maiores bancadas de um único partido desde a promulgação da Constituição. Na noite seguinte, o candidato anunciou que terá maioria para “mudar a Constituição e redemocratizar esse país”.
Mas essa narrativa não se sustenta. Ganhar uma eleição dá o direito de governar; não dá o direito de reescrever as regras do jogo para nunca mais perder. E é exatamente essa diferença que está em disputa agora.
Redemocratizar o quê, e contra quem
A palavra foi escolhida com cuidado. “Redemocratizar” pressupõe que o país vive uma ditadura, e a ditadura, na versão bolsonarista, tem endereço: o Supremo Tribunal Federal. O mesmo tribunal que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Na prática, o programa de Flávio propõe limitar as decisões individuais dos ministros, restringir quem pode acionar a Corte e tirar do STF o julgamento criminal de parlamentares, mandando-os para instâncias inferiores, “para que exerçam seus mandatos com mais altivez”. Em outras palavras: os políticos querem escolher o tribunal que vai julgá-los. Tudo isso enquanto parlamentares se incomodam com as investigações sobre desvio de emendas que correm no gabinete de um ministro do Supremo.
Algumas dessas ideias, isoladas, cabem num debate honesto sobre o Judiciário. Mandato para ministros, por exemplo, existe em outras democracias. O problema não é a ideia. É o motivo, o momento e quem segura a caneta. Reforma feita por quem acabou de ver o próprio líder condenado não é reforma. É revanche com verniz institucional.
Ministro não é roupa que se troca
No Senado, a bancada bolsonarista deve chegar a 44 dos 81 assentos. O futuro candidato à presidência da Casa, Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, já avisou ao presidente do STF que “não haverá vingança, mas também não haverá omissão”. Nomeou, na mesma frase, os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino.
O impeachment de um ministro do Supremo existe para crime de responsabilidade. Não existe para decisão que desagrada. Quando a cassação de juízes vira bandeira de campanha, com nomes escolhidos antes de qualquer acusação formal, o recado à Corte é claro: julguem do jeito que a maioria quer, ou serão os próximos. Um tribunal que decide com medo do Senado deixou de ser tribunal. Virou um anexo do poder político.
Faltam a eles 10 votos para os 54 necessários. A distância é pequena. E a pressão não precisa de votos para funcionar; basta a ameaça.
A Constituição não é programa de governo
Para aprovar uma emenda constitucional são necessários 308 deputados e 49 senadores. A direita deve somar cerca de 280 na Câmara e 44 no Senado. Com o Centrão, que encolheu mas continua do tamanho de um país, a conta fecha.
A Constituição de 1988 foi escrita para durar mais do que qualquer governo justamente porque sabia que governos passam. Tratar o texto constitucional como lista de promessas de campanha, mudando mandato, reeleição e regras do Judiciário ao sabor da maioria do momento, é corroer por dentro aquilo que protege todos, inclusive quem hoje está em minoria. Já vimos esse caminho em outros lugares. Na Hungria, na Venezuela, na Turquia, ninguém precisou fechar o Congresso. Bastou usar a maioria para mudar os juízes, depois as regras, depois os prazos. Tudo dentro da lei. Tudo votado.
Há um limite: as cláusulas pétreas. A separação dos Poderes, o voto direto e periódico, os direitos individuais não podem ser abolidos nem por emenda. Mas quem decide se uma emenda fere uma cláusula pétrea é o próprio Supremo. Por isso o ataque começa por ele.
O retrato da bancada
A nova composição não se mede só em números. Mede-se também no que ela comemora.
Eduarda Campopiano foi a deputada estadual mais votada de São Paulo, com 1.956.238 votos, aos 23 anos. Apresenta-se como “a maior inimiga das feministas de SP” e ficou conhecida por dizer que “feminicídio não existe” e que “nenhuma mulher morre por ser mulher”. Em 2021, escreveu: “Não devo NADA ao feminismo. Nenhuma mulher deve.”
É uma ironia grotesca. As mulheres brasileiras só conquistaram o direito de votar em 1932, depois de décadas de luta das sufragistas, e só passaram a votar nas mesmas condições que os homens em 1965. Sem esse movimento, não haveria eleitoras para dar a Campopiano seus quase 2 milhões de votos, nem candidata para recebê-los. Ela deve ao feminismo a urna em que foi votada, a cadeira em que vai sentar e o microfone que usa para dizer que não deve nada a ninguém. Declarar guerra ao movimento que abriu a porta por onde se passou não é coragem. É ingratidão transformada em plataforma.
E não para por aí. Diante de políticas de reparação racial, disse na Câmara de Praia Grande que “nenhum negro nessa sala foi escravizado”. Sobre os povos indígenas, celebrou: “Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as índias”. A fala rendeu um boletim de ocorrência por racismo, registrado pela liderança indígena Katú Mirim. Nem a própria colega de partido aguentou o discurso sobre feminicídio. Adri Cherini, a deputada mais votada do Rio Grande do Sul, também do PL, chamou a fala de “uma bobagem”. Cherini foi eleita defendendo vítimas de violência doméstica, e sabe o que acontece nas casas do estado dela.
Júlia Zanatta, a deputada federal mais votada da história de Santa Catarina, comemorou a vitória descendo à rua para estalar um relho. A explicação veio depois: uma expressão regional, “dar de relho”. O relho, explica o professor de linguística da UFSC ouvido pelo g1, é um açoite feito para fustigar animais, e que também serviu para castigar pessoas escravizadas. Num país que foi o último das Américas a abolir a escravidão, e onde uma colega de partido trata a escravidão como assunto encerrado, um chicote erguido em comemoração não é folclore. É memória. Uma eleitora de direita, catarinense, resumiu melhor do que qualquer adversário: “Brincar com algo assim foi extremamente infeliz”.
E o chicote estala no mesmo momento em que se discute o fim da escala 6×1, que hoje prende quase 40 milhões de brasileiros a seis dias de trabalho por um de descanso, e que o candidato da deputada prefere trocar por um “regime flexível”. A imagem fala sozinha.
Quem votou não é o problema
Seria fácil parar aqui. Seria fácil olhar para 47% dos votos e enxergar 47% de golpistas, racistas e autoritários. Seria fácil, e seria errado.
A maior parte de quem votou na direita neste domingo não votou contra a democracia. Votou contra a conta de luz, contra o ônibus lotado, contra o medo de sair à noite, contra a sensação de que Brasília não fala com quem acorda às cinco da manhã. Votou com raiva, com cansaço, com desconfiança. Muitos votaram contra algo, não a favor de um projeto de poder. A mesma eleitora catarinense que se envergonhou do chicote é prova disso: há gente de direita que não aceita qualquer coisa em seu nome.
Tratar esses eleitores como inimigos é entregar a eles, de bandeja, o discurso de que a esquerda os despreza. Mais do que isso: é desistir de quem ainda pode ser convencido. O desgosto é legítimo. O que não é legítimo é transformar esse desgosto em procuração para desmontar as instituições que protegem o próprio eleitor.
O fim da ilusão
A ilusão de que maioria é licença precisa acabar. Não há democracia em que o vencedor escolhe os juízes que vão julgá-lo. Não há Estado de Direito em que a Constituição muda conforme o placar da última eleição. E não há liberdade em que ministros são ameaçados de cassação antes mesmo de qualquer acusação.
A maioria não é um cheque em branco; é um mandato com prazo, limites e regras que valem também para quem venceu.
Ainda há um segundo turno, no dia 25. Ainda há um país inteiro de gente cansada, mas não perdida. Se quisermos proteger a democracia, precisamos falar com quem votou do outro lado, e não sobre eles. Precisamos lembrar que as regras que hoje nos protegem também os protegem.
A democracia não se perde num golpe. Perde-se aos poucos, votação após votação, enquanto alguém diz que está tudo dentro da lei.





