A eleição costuma ser descrita como a festa da democracia: o povo fala, a urna obedece e o resultado, qualquer que seja, prova que o sistema funciona. Essa narrativa não se sustenta quando a urna entrega a chave da casa justamente a quem passou quatro anos tentando arrombar a porta. O domingo foi democrático. O que vem depois dele, não necessariamente.
O PL saiu das urnas maior do que entrou. Elegeu governadores, uma bancada robusta na Câmara e presença esmagadora no Senado. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, mais de 2,2 milhões de votos de vantagem. A decisão fica para o segundo turno, mas a maré já mostrou a direção. E maré não pede licença para subir. Parabéns aos envolvidos.
A primeira canetada já tem nome e sobrenome
Ninguém precisa de bola de cristal para adivinhar o primeiro item da pauta. A anistia aos condenados pela trama golpista de 2022 e pelo 8 de janeiro nunca saiu da lista. Só esperava o tamanho certo de bancada. O tamanho chegou. E, entre os beneficiados, estaria o próprio pai do candidato, condenado pelo Supremo em 2025. Nada mais brasileiro do que resolver problema de família com caneta pública.
E anistia, convém lembrar, não é perdão. É recado. Diz a quem tentou que a tentativa saiu de graça e avisa a quem pensar em tentar de novo que o preço é zero. O Brasil já fez esse acordo uma vez, em 1979, e passou as quatro décadas seguintes convivendo com torturador de pijama e saudosista de farda. Deu no que deu. Mas a memória nacional, como se sabe, tem prazo de validade menor que iogurte.
Quem segurou as canetadas entre 2019 e 2022
Entre 2019 e 2022, o Executivo flertou abertamente com a ruptura: atacou as urnas, ameaçou ministros, desfilou tanques na Esplanada e fez live de desinformação em horário nobre. Quem segurou as canetadas não foi o Congresso. O Congresso negociou, empurrou, sentou em cima de mais de uma centena de pedidos de impeachment e cobrou a fatura em emenda. Quem segurou foi o Supremo: inquérito, decisão, liminar. Quase sempre sozinho, e sob ataque permanente por isso.
Sem aquela barreira, a história não teria terminado igual. Teria terminado em outro lugar, e esse lugar o Brasil conhece bem.
O freio agora depende de quem quer acelerar
Aqui mora o problema. O ministro do Supremo é indicado pelo presidente e aprovado pelo Senado. O mesmo ministro, quando alguém pede seu impeachment, é processado e julgado pelo Senado. Com maioria folgada nessa Casa, um único grupo passa a controlar a porta de entrada e a porta de saída do tribunal.
E a porta de entrada já está aberta. Em abril de 2026, o Senado rejeitou Jorge Messias, indicado por Lula para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso: 42 votos contra, 34 a favor. Foi a primeira recusa a um nome para o Supremo em 132 anos. A última tinha sido em 1894, no governo de Floriano Peixoto. Um Senado que desenterra uma prática do Marechal de Ferro para travar a indicação de um presidente não vai ter pudor nenhum em carimbar as do próximo. Some-se à cadeira vaga as aposentadorias obrigatórias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes até 2030: são quatro cadeiras ao alcance do próximo presidente, um Senado ainda mais alinhado a ele e a ameaça permanente de impeachment pairando sobre quem ousar contrariar. Não é preciso fechar o Supremo. Basta lotá-lo.
O roteiro não é inédito. Na Hungria, Viktor Orbán usou os dois terços do Parlamento para ampliar e encher a Corte Constitucional. Na Polônia, o governo do PiS capturou o Tribunal Constitucional em poucos meses. Na Venezuela de Hugo Chávez, o Supremo passou de 20 para 32 cadeiras em 2004. Em nenhum desses casos houve tanque na rua. Houve votação, quórum e Diário Oficial. A democracia não morreu de tiro; morreu de procedimento.
Um Congresso que já mostrou de que lado fica
Sobra a Câmara. E a Câmara já mostrou o que faz quando o vento sopra a favor do poder: atrasa o que incomoda, acelera o que convém e vende o resto. Uma Casa que deixou pedidos de impeachment mofando na gaveta por anos não vai descobrir, de repente, a vocação de guardiã da Constituição. Subserviência não é acidente de percurso. É modelo de negócio.
O país que ninguém quis ver
Seria confortável demais culpar só o PL. As bancadas não caíram do céu; foram votadas. Milhões de brasileiros escolheram, conscientemente, quem desdenha da ciência, quem trata universidade como antro e professor como inimigo, quem chama estudo de doutrinação. Mulheres elegeram quem trata como concessão revogável os direitos conquistados por mulheres, a começar pelo voto, arrancado em 1932.
E outros tantos preferiram não escolher. Mais de 33,4 milhões de brasileiros não apareceram, 15 vezes a diferença entre os dois primeiros colocados. Outros quase 6 milhões votaram em branco ou anularam, quase o triplo dessa diferença. A abstenção não faz campanha, mas elege. E costuma eleger quem menos precisa dela.
A pergunta incômoda é: onde estava toda essa gente? Estava aqui. No grupo da família, no culto, na fila do banco, no mesmo elevador. O campo progressista é que não quis ver. Ou achou que bastava rir.
A arrogância também perde eleição
E é aqui que o campo democrático precisa encarar o espelho. A arrogância é um inimigo real. Tratar o eleitor do outro lado como ignorante, como gado, como caso perdido, não converte ninguém. Só confirma a narrativa de que existe uma elite que despreza o povo. Ironia das ironias: quem mais fala em diálogo foi quem menos se dispôs a ouvir.
Enquanto isso, a história se repete com a precisão de um livro que nunca foi lido. Escolhe-se um inimigo (o nordestino, o professor, o gay, o imigrante, o “comunista”) e passa-se a odiar gente que não deu motivo nenhum para ser odiada. A Alemanha dos anos 1930 também chegou lá pela urna e pelo acordo de elites que achavam que iam domar o monstro. O Brasil de 1964 também teve aplauso no Congresso, na imprensa e na rua. Ninguém acorda num regime autoritário de um dia para o outro. Chega-se lá aos poucos, com apoio e com muita gente achando que não ia dar em nada.
O fim da ilusão
A romantização da urna como ponto final precisa acabar. Não há democracia garantida pelo resultado de um domingo. Não há Supremo que resista sozinho a um Senado que o quer de joelhos. E não há memória que sobreviva a um país que insiste em não ler a própria história.
Está na hora de reescrever a descrição deste momento. Ele não é uma simples alternância de poder; é um teste de resistência. Se quisermos atravessá-lo, precisamos de menos deboche e mais presença: no Congresso, na rua e nas conversas difíceis com quem pensa diferente.
A urna falou.
Agora é a vez de quem ainda lembra.





