A MáquinaComo o Estado funciona. E para quem.Nº 03
A Máquina

Os que ninguém elegeu: como funciona a Justiça no Brasil

Nenhum juiz passa pela urna. O caminho de um processo até o STF, quem indicou cada um dos ministros do Supremo e por que a cadeira de Barroso segue vazia.

Por Julio Medeiros
28 de setembro de 2026 · 4 min de leitura
Fachada do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes. Foto: Pedro França/Agência Senado (CC BY 2.0)

O Judiciário brasileiro é frequentemente descrito como um bloco único, distante e todo-poderoso, que decide tudo do alto de Brasília. Para uns, o Supremo governa o país; para outros, é a última trincheira da democracia. Mas as duas narrativas pulam a parte mais importante: quase ninguém sabe como um processo anda, quem julga o quê e quem escolheu quem está sentado em cada cadeira.

Nenhum juiz de carreira no Brasil passa pela urna. Juízes entram por concurso. Desembargadores chegam por promoção ou pelas vagas reservadas ao Ministério Público e à advocacia. E os ministros dos tribunais superiores, na maioria, são indicados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado. É uma escolha de desenho: uma parte do Estado precisa estar protegida da vontade de cada eleição. O problema começa quando o desenho vira mistério.

O caminho do seu processo

“Vou levar isso até o Supremo” é uma das frases mais repetidas — e mais enganosas — do país. A imensa maioria dos processos começa e termina longe de Brasília. O STF só julga recurso quando há questão constitucional com repercussão geral. O STJ, desde setembro de 2026, passou a exigir que a questão de lei federal seja relevante. Escolha um tipo de caso e veja o caminho.

E não para por aí. A Justiça do Trabalho tem trilho próprio e nunca passa pelo STJ. O Juizado Especial, que resolve as brigas de consumidor, também não. Enquanto isso, deputados e senadores acusados de crime ligado ao mandato começam direto no topo: desde 2025, o foro especial no STF continua mesmo depois que o político deixa o cargo, desde que o crime tenha sido cometido no mandato e por causa dele.

As 11 cadeiras e a que está vazia

O Supremo tem 11 cadeiras, mas hoje funciona com 10. Luís Roberto Barroso se aposentou em outubro de 2025. Lula indicou Jorge Messias, e o Senado fez o que não fazia havia 132 anos: rejeitou o nome, por 42 votos a 34, em abril de 2026. A cadeira segue vazia.

Quem indicou um ministro não determina como ele vota — a história do tribunal está cheia de indicados que contrariaram quem os escolheu. Mas a conta mostra o que o debate costuma esconder: a composição do Supremo é resultado de décadas de escolhas de presidentes diferentes, de FHC a Bolsonaro. E as próximas aposentadorias, aos 75 anos, já têm data. Se a vaga de Barroso continuar aberta, quem assumir a Presidência em 2027 poderá indicar até quatro ministros no mandato.

Um poder caro e lento

O Judiciário brasileiro custou R$ 164,6 bilhões em 2025, segundo o próprio Conselho Nacional de Justiça. Terminou o ano com 75,5 milhões de processos pendentes — e recebeu 40,9 milhões de casos novos, um recorde. Não se trata de falta de dinheiro. Trata-se de um sistema que concentra poder no topo e empurra a demora para a base, onde está quem não pode pagar um advogado caro.

O fim da ilusão

A romantização do Judiciário como um poder acima da política precisa acabar. Não há juiz eleito. Não há ministro do Supremo que chegue lá sem passar pelas mãos de um presidente e do Senado. E não há Justiça rápida para quem depende dela para receber um benefício ou um salário atrasado.

Está na hora de reescrever a descrição do Judiciário. Ele não é um oráculo; é uma instituição, com indicação, custo e fila. Se quisermos cobrar, precisamos, antes de tudo, saber por onde anda o processo — e quem escolheu quem vai julgá-lo.

Ninguém elegeu os juízes.
Mas alguém escolheu cada um deles.

Julio Medeiros

Newsletter

Receba nosso editorial semanal e fique de olho nas novidades: é só se inscrever na nossa newsletter.