O Congresso Nacional é frequentemente descrito como a casa do povo: 513 deputados e 81 senadores que representam, em tese, cada brasileiro por igual. Mas essa narrativa não se sustenta — e a própria Constituição se encarrega de desmenti-la.
A Câmara deveria ser proporcional à população. Não é. A Constituição fixa um mínimo de 8 e um máximo de 70 deputados por estado. Resultado: em São Paulo há um deputado para cada 658 mil habitantes; em Roraima, um para cada 92 mil. Na escolha de deputado, proporcionalmente, o voto de quem mora em Roraima pesa 7,1 vezes o de quem mora em São Paulo. No Senado, onde todo estado tem três cadeiras, seja qual for o tamanho, a diferença passa de 60 vezes.
Quanto vale o seu voto
Não se trata de acidente. O Senado foi desenhado para representar os estados, não as pessoas, e o piso de oito deputados protege os estados menores. Mas o teto de 70 faz o caminho contrário: pune justamente os mais populosos. Em 2025, cobrado pelo STF a atualizar a divisão das cadeiras pelo Censo, o Congresso tentou resolver o problema aumentando o número de deputados para 531. O presidente vetou, e o Supremo decidiu que 2026 segue com as mesmas 513 cadeiras. A redistribuição ficou para 2030.
Quem ocupa as cadeiras
Hoje, 22 partidos têm deputados em exercício e 12 têm senadores. O maior partido da Câmara, o PL, tem 98 deputados — menos de um quinto da Casa. Ninguém governa sozinho: para aprovar uma lei complementar ou derrubar um veto são necessários 257 deputados; para mudar a Constituição, 308, em dois turnos; e 342 para autorizar um processo de impeachment.
Em outras palavras: todo governo, de qualquer cor, depende de montar maioria com partidos que não são o seu. É aí que entra o balcão — as emendas, os cargos, as negociações que o eleitor não vê. Mais do que isso: o presidente da Câmara, hoje Hugo Motta, decide o que entra em votação; o do Senado, Davi Alcolumbre, preside também o Congresso. São dois dos cargos mais poderosos do país, e nenhum eleitor votou em ninguém para ocupá-los.
O fim da ilusão
A romantização do Congresso como espelho do povo precisa acabar. Não há proporcionalidade na Câmara. Não há igualdade no Senado. E não há maioria sem negociação — ou sem barganha.
Está na hora de reescrever a descrição do Congresso. Ele não é a casa do povo; é a casa de uma representação desenhada para pesar diferente conforme o endereço do eleitor. Se quisermos cobrar o Congresso, precisamos saber quanto pesa o nosso voto — e quem, de fato, decide o que vai a voto.
No dia 4 de outubro, 513 cadeiras na Câmara e 54 no Senado estão em jogo.
Nem todas valem o mesmo voto.
Julio Medeiros


