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513 e 81: o Congresso que não representa todos igualmente

São 513 deputados e 81 senadores, mas o voto de quem mora em Roraima pesa 7 vezes o de quem mora em São Paulo na Câmara, e 62 vezes no Senado.

Por Julio Medeiros
28 de setembro de 2026 · 3 min de leitura
Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa. Foto: Marri Nogueira/Agência Senado (CC BY 2.0)

O Congresso Nacional é frequentemente descrito como a casa do povo: 513 deputados e 81 senadores que representam, em tese, cada brasileiro por igual. Mas essa narrativa não se sustenta — e a própria Constituição se encarrega de desmenti-la.

A Câmara deveria ser proporcional à população. Não é. A Constituição fixa um mínimo de 8 e um máximo de 70 deputados por estado. Resultado: em São Paulo há um deputado para cada 658 mil habitantes; em Roraima, um para cada 92 mil. Na escolha de deputado, proporcionalmente, o voto de quem mora em Roraima pesa 7,1 vezes o de quem mora em São Paulo. No Senado, onde todo estado tem três cadeiras, seja qual for o tamanho, a diferença passa de 60 vezes.

Quanto vale o seu voto

Não se trata de acidente. O Senado foi desenhado para representar os estados, não as pessoas, e o piso de oito deputados protege os estados menores. Mas o teto de 70 faz o caminho contrário: pune justamente os mais populosos. Em 2025, cobrado pelo STF a atualizar a divisão das cadeiras pelo Censo, o Congresso tentou resolver o problema aumentando o número de deputados para 531. O presidente vetou, e o Supremo decidiu que 2026 segue com as mesmas 513 cadeiras. A redistribuição ficou para 2030.

Quem ocupa as cadeiras

Hoje, 22 partidos têm deputados em exercício e 12 têm senadores. O maior partido da Câmara, o PL, tem 98 deputados — menos de um quinto da Casa. Ninguém governa sozinho: para aprovar uma lei complementar ou derrubar um veto são necessários 257 deputados; para mudar a Constituição, 308, em dois turnos; e 342 para autorizar um processo de impeachment.

Em outras palavras: todo governo, de qualquer cor, depende de montar maioria com partidos que não são o seu. É aí que entra o balcão — as emendas, os cargos, as negociações que o eleitor não vê. Mais do que isso: o presidente da Câmara, hoje Hugo Motta, decide o que entra em votação; o do Senado, Davi Alcolumbre, preside também o Congresso. São dois dos cargos mais poderosos do país, e nenhum eleitor votou em ninguém para ocupá-los.

O fim da ilusão

A romantização do Congresso como espelho do povo precisa acabar. Não há proporcionalidade na Câmara. Não há igualdade no Senado. E não há maioria sem negociação — ou sem barganha.

Está na hora de reescrever a descrição do Congresso. Ele não é a casa do povo; é a casa de uma representação desenhada para pesar diferente conforme o endereço do eleitor. Se quisermos cobrar o Congresso, precisamos saber quanto pesa o nosso voto — e quem, de fato, decide o que vai a voto.

No dia 4 de outubro, 513 cadeiras na Câmara e 54 no Senado estão em jogo.
Nem todas valem o mesmo voto.

Julio Medeiros

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