O sistema partidário brasileiro é frequentemente descrito como uma sopa de letrinhas: dezenas de siglas, nenhuma ideia, todas atrás de dinheiro. A descrição tem a sua dose de verdade. Mas ela esconde o essencial: quem paga essa conta, como o dinheiro é dividido e por que as regras mudaram tanto nos últimos anos.
O Brasil tem hoje 30 partidos registrados na Justiça Eleitoral e outros 23 em formação. Nem todos jogam o mesmo jogo: em 2025, dez deles ficaram sem fundo partidário por não terem cumprido a cláusula de barreira. E, desde 2015, empresas estão proibidas de doar para campanhas. Quem financia a política brasileira, hoje, é sobretudo o dinheiro público.
O fundão de R$ 4,96 bilhões
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha — o fundão — tem R$ 4,96 bilhões em 2026, o mesmo valor de 2022 e de 2024. A divisão não é igual: quase tudo depende do tamanho de cada bancada no Congresso e dos votos da última eleição para a Câmara. Resultado: quem já é grande recebe mais para continuar grande.
Há regras para que esse dinheiro não fique todo com os mesmos de sempre: no mínimo 30% para candidaturas de mulheres e 30% para candidaturas negras. Mas quem reparte o dinheiro dentro de cada partido é a direção partidária — e é ali que se decide quem terá campanha de verdade e quem será apenas um número na urna.
A coligação acabou; agora é federação
Até 2018, partidos se juntavam em coligações para a eleição de deputado e se separavam no dia seguinte. O voto no candidato de um partido podia eleger alguém de outro, com ideias opostas. A Emenda Constitucional 97, de 2017, acabou com isso a partir de 2020. Coligação, hoje, só existe na eleição majoritária: presidente, governador, senador e prefeito.
No lugar entraram as federações: partidos que decidem atuar juntos por, no mínimo, quatro anos, em todo o país, como se fossem um só. Quem sai antes do prazo é punido. Em 2026 são cinco federações, da Brasil da Esperança à União Progressista. Quem fala em coligação para deputado está descrevendo um país que não existe mais.
A cláusula que vai enxugar a lista
A cláusula de barreira é o filtro que decide quem continua recebendo dinheiro público e tempo de rádio e TV. Depois desta eleição, só passa quem tiver 2,5% dos votos válidos para a Câmara, espalhados por pelo menos nove estados, ou eleger 13 deputados. Em 2030, a régua sobe para 3%. Partidos pequenos vão desaparecer, fundir-se ou federar-se. É o sistema funcionando exatamente como foi projetado: menos siglas, mais concentração.
O fim da ilusão
A romantização dos partidos como associações de ideias precisa acabar — assim como o cinismo de quem acha que todos são iguais. Não há campanha sem dinheiro público. Não há dinheiro público sem regra de divisão. E não há regra de divisão neutra.
Está na hora de reescrever a descrição dos partidos. Eles não são clubes de afinidade; são as portas de entrada do poder, mantidas com dinheiro de todos nós. Se quisermos mudar quem chega ao Congresso, precisamos, antes de tudo, entender quem controla essas portas.
O fundão é público.
A escolha de quem recebe, não.
Julio Medeiros


