Na noite de 25 de outubro, com 100% das urnas apuradas, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou: Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos (64.256.232), contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (59.826.041). Uma virada sobre o primeiro turno, quando Flávio havia saído na frente com 47,03%. Lula venceu em 13 estados; Flávio, em outros 13 e no Distrito Federal. Minas Gerais, como sempre, decidiu no detalhe: 50,43% a 49,57%.
O país saiu da urna dividido ao meio. E é justamente por isso que o resultado importa tanto.
O que estava em jogo não era só a Presidência
Há três semanas, neste mesmo espaço, perguntamos quem vai segurar as canetadas. A pergunta continua valendo, e a resposta de domingo é: ninguém vai ter todas elas.
Faça a conta do cenário que não aconteceu.
O PL chega a fevereiro de 2027 com 121 deputados e 28 senadores, as maiores bancadas de um único partido desde 1988. A oposição deve somar entre 43 e 45 dos 81 senadores, maioria absoluta. É o Senado que aprova (ou rejeita) cada ministro do Supremo e é o Senado que julga o impeachment desses mesmos ministros.
No Supremo, há uma cadeira vazia desde a saída de Luís Roberto Barroso. Pela regra dos 75 anos, saem Luiz Fux em 2028, Cármen Lúcia em 2029 e Gilmar Mendes em 2030. São quatro indicações no próximo mandato. Somadas às duas que Jair Bolsonaro já fez, Nunes Marques e André Mendonça, seriam seis dos onze ministros escolhidos pela mesma família. Maioria do tribunal.
O mesmo tribunal que, em 2025, condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Presidente da República indicando, Senado aliado aprovando, Senado aliado ameaçando quem sobrasse, Câmara com a maior bancada do país e um projeto de anistia aos condenados do 8 de janeiro esperando na gaveta. Não é teoria da conspiração. É aritmética.
Ninguém precisou fechar o Congresso
É assim que democracias morrem hoje. Não com tanques, mas com votação.
Na Hungria, Viktor Orbán conquistou dois terços do Parlamento em 2010, reescreveu a Constituição no ano seguinte, ampliou o Tribunal Constitucional e o encheu de aliados. Na Polônia, o PiS fez o mesmo com o Tribunal Constitucional a partir de 2015. Na Venezuela, Hugo Chávez aumentou o Supremo de 20 para 32 juízes em 2004. Tudo dentro da lei. Tudo votado. Quando a sociedade percebeu, o árbitro já vestia a camisa de um dos times.
O que esses países tinham em comum não era um líder carismático. Era a ausência de freio. Um mesmo grupo controlando quem faz as leis, quem as executa e quem decide se elas valem.
A prova veio no mesmo domingo
Se alguém ainda achava exagero falar em risco, Flávio Bolsonaro tratou de desfazer a dúvida na própria noite da derrota.
Em 2 de agosto, no Canal Livre, ele havia dito: “Eu vou aceitar, vou concorrer com essas regras”. Em 16 de outubro, na sabatina da TV Globo, repetiu: “Independentemente de qual for o resultado, vou respeitar”. No domingo, com a derrota confirmada, mudou de ideia: “Nós vamos usar o nosso jurídico para pedir a anulação dessas eleições”. Disse ser “impossível” reconhecer o resultado e saiu sem responder perguntas, segundo o Metrópoles.
O pretexto foi a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de estender a votação até as 19h. A versão que circulou nas redes é a de um ministro que “atropelou” o TSE. A cronologia conta outra história.
As duas campanhas pediram mais tempo por problemas de transporte e chuva. O primeiro pedido chegou ao TSE por volta das 13h30, segundo a Jovem Pan. O presidente da Corte, Nunes Marques, não decidiu, nem para conceder nem para negar, e, segundo a Lupa, não se pronunciou até as 17h. Às 15h46, o caso chegou ao presidente do STF, Edson Fachin, que também não tratou do mérito. O processo foi distribuído eletronicamente a Zanin, que decidiu minutos antes do fechamento das urnas. Depois de uma conversa por telefone entre os três, a prorrogação ficou restrita às seções que ainda estavam abertas, e Nunes Marques referendou a decisão.
Ou seja: Zanin não passou por cima de ninguém. Ele decidiu porque quem deveria ter decidido antes passou mais de três horas sem fazê-lo, com a votação correndo. O problema da tarde de domingo foi a omissão de quem tinha o pedido na mesa e preferiu empurrar o caso adiante. Uma negativa às 14h teria sido tão legítima quanto uma concessão. O que não se pode é deixar uma eleição presidencial esperando resposta até o último minuto. Essa cobrança é justa, e vale para os dois presidentes de tribunal.
Ainda assim, o que Flávio fez não foi cobrar. Três fatos desmontam o pedido de anulação:
- A própria campanha dele pediu mais tempo. Às 15h50, o PL protocolou no TSE um pedido citando chuva, alagamentos e falta de luz em 19 cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
- O TSE desmentiu a acusação sobre os fiscais. A afirmação de que fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre foi classificada como falsa pelo tribunal.
- Quem garante o resultado é um indicado de Bolsonaro. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, foi nomeado ao Supremo por Jair Bolsonaro em 2020. Foi ele quem afirmou que a decisão de Zanin não alterou a apuração.
Quatro milhões e quatrocentos mil votos de diferença não cabem em duas horas de fila em seções que já estavam abertas.
Agora imagine essa mesma reação vinda de um grupo que tivesse, além do Senado, a caneta da Presidência e a perspectiva de maioria no Supremo. A recusa em aceitar a derrota não é um detalhe de temperamento. É o retrato de como esse grupo enxerga as regras: valem quando a gente ganha.
Lula não ganhou um cheque em branco também
Seria desonesto parar aqui e comemorar como se o problema tivesse acabado. Não acabou, e não deveria acabar.
Lula vai governar com o Congresso mais à direita desde a redemocratização. A federação do PT terá 88 deputados; somada a PSOL, PSB e PDT, chega a cerca de 124 cadeiras, menos de um quarto da Câmara. No Senado, o PT terá 9 senadores. Segundo a Gazeta do Povo, cada projeto vai passar por negociação com o Centrão.
Também é verdade que a caneta do STF continua com o presidente. Lula pode indicar até quatro ministros, e já sinalizou que pode reapresentar Jorge Messias. Mas o Senado que rejeitou Messias em abril, por 42 a 34, a primeira recusa em 132 anos, agora tem ainda mais oposição. Toda indicação vai precisar de 41 votos e de um nome que convença quem pensa diferente.
E, do outro lado, a oposição tem maioria simples, mas não os 54 votos necessários para cassar um ministro do Supremo nem os 49 para mudar a Constituição sozinha, como mostrou o Poder360. Ninguém consegue tudo. Todo mundo precisa de alguém.
Isso não é paralisia. É o sistema funcionando.
O equilíbrio é chato. Ainda bem.
Negociação tem má fama no Brasil. Lembra emenda, cargo, toma-lá-dá-cá. E muitas vezes é isso mesmo, e merece ser cobrado. Os R$ 57 bilhões em emendas previstos para 2027 precisam de transparência, não de aplauso.
Mas a alternativa à negociação não é um governo limpo e eficiente. É um governo que não precisa ouvir ninguém. A Constituição de 1988 foi desenhada para que nenhum grupo, nem o que nos agrada, consiga fazer tudo sozinho. Um presidente que precisa convencer o Senado a aprovar seus ministros vai escolher nomes mais técnicos e menos militantes. Um Senado que não tem votos para cassar juízes precisa conviver com decisões que o desagradam. Um Supremo observado pelos dois lados precisa justificar cada passo.
Quem perdeu a eleição continua tendo voz, bancada e poder de veto. Quem ganhou tem a caneta, mas não a tinta toda. É exatamente essa divisão que teria desaparecido se o resultado fosse outro, nas mãos de quem acabou de mostrar que só aceita a regra quando ela favorece.
Quem votou não é o inimigo
Quase 60 milhões de pessoas votaram em Flávio Bolsonaro. A maioria delas não votou pela anulação de eleição nenhuma. Votou contra o preço da comida, contra a insegurança, contra a sensação de que o governo não ouve. Esses eleitores agora são representados por um Congresso forte, e isso é legítimo. É o equilíbrio que eles mesmos ajudaram a construir.
O que não é legítimo é o candidato que eles escolheram usar esses votos como escudo para desacreditar a urna que os contou.
A democracia brasileira não foi salva por Lula. Foi salva por ninguém ter ganhado tudo. Foi salva pelo eleitor que, dividido, deu a um a Presidência e a outro o Congresso, e obrigou os dois a conversar.
Agora é cobrar que conversem. E lembrar que o freio que sobrou só funciona enquanto alguém estiver disposto a pisar nele.
Fontes
- Resultado do 2º turno: TRE-SP / TSE, InfoMoney, Bloomberg Línea
- Falas de Flávio Bolsonaro antes e depois da eleição: Metrópoles
- Decisão de Zanin, pedidos das campanhas e omissão do TSE: Poder360, Jovem Pan, Agência Lupa
- Reação do TSE: Jovem Pan, Exame
- Composição do Congresso em 2027: Gazeta do Povo, Poder360, InfoMoney
- Vagas no STF: Times Brasil
- Base deste texto: Quem vai segurar as canetadas?, Desgovernados





