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Lula vira o jogo, vence por 4,4 milhões de votos e conquista o quarto mandato

Segundo colocado no primeiro turno, o petista derrotou Flávio Bolsonaro com 51,79% dos votos válidos, numa noite em que o placar virou duas vezes. A vantagem é o dobro da de 2022, mas o mapa continua partido ao meio, e o adversário já fala em anular a eleição.

Por Julio Medeiros
26 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Foto: Ricardo Stuckert/Lula Oficial (CC BY-SA 4.0)

Às 19h46 deste domingo (25), o painel do Tribunal Superior Eleitoral mostrou Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante 38 minutos, quem acompanhava a apuração viu se desenhar a repetição do primeiro turno. Às 20h24, os votos do Nordeste e de Minas Gerais começaram a pesar, e Lula retomou a liderança. Não a perdeu mais.

Às 22h33, com 100% das seções apuradas, o resultado estava fechado: Lula, 64.256.232 votos (51,79%); Flávio, 59.826.041 votos (48,21%). Uma diferença de 4.430.191 votos.

Aos 80 anos, Lula se torna o único brasileiro eleito quatro vezes presidente pelo voto direto (2002, 2006, 2022 e 2026). É também o primeiro presidente reeleito desde Dilma Rousseff, em 2014. Toma posse em 5 de janeiro de 2027, de novo ao lado de Geraldo Alckmin (PSB).

Mapa do Brasil com o percentual de votos válidos de Lula em cada estado no segundo turno de 2026: vermelho onde Lula venceu (Nordeste, Pará, Amazonas, Amapá e Minas Gerais), azul onde Flávio Bolsonaro venceu (Sul, Centro-Oeste, São Paulo, Rio, Espírito Santo, Roraima, Rondônia, Acre e Tocantins)
Percentual de votos válidos de Lula por estado no 2º turno. Fonte: TSE. Arte: Desgovernados

Do segundo lugar à vitória

A virada não começou no domingo. Começou em 4 de outubro, quando Flávio saiu do primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Na véspera do segundo turno, as últimas pesquisas ainda davam vantagem ao senador: 51,56% na Veritá e 50,8% na AtlasIntel.

As urnas disseram outra coisa. Entre os dois turnos, Lula ganhou 10,4 milhões de votos, saltando de 53,9 milhões para 64,3 milhões. Flávio somou 3,7 milhões, de 56,1 milhões para 59,8 milhões. Segundo a Agência Senado, é a primeira vez que um candidato derrotado no primeiro turno vira a disputa no segundo e vence a eleição presidencial.

Parte da explicação está em quem foi votar. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo, a menor para um segundo turno desde 2018. Brancos e nulos somaram 3,24%.

Um país partido ao meio

O mapa repete, com poucas mudanças, o desenho que o Brasil conhece desde 2014. Lula venceu em 13 estados. Flávio, em 13 estados e no Distrito Federal.

Nordeste. Foi ali que a eleição se decidiu. Lula venceu nos nove estados, todos com mais de 60% dos votos válidos, e somou 24,45 milhões de votos na região, quase 3 milhões a mais que no primeiro turno. O Piauí deu a ele a maior votação do país, 75,88%, seguido da Bahia (71,31%), do Maranhão (69,54%) e de Sergipe (69,53%). Alagoas foi o estado nordestino mais disputado, com 60,77%.

Norte. A região se dividiu. Lula venceu no Pará (55,02%), no Amazonas (54,02%) e no Amapá (52,88%). Flávio levou Roraima, com 72,46%, sua maior votação no país, além de Rondônia (69,61%), Acre (66,57%) e Tocantins, este por margem estreita: 51,37% a 48,63%.

Sudeste. Flávio venceu em São Paulo (53,85%), no Rio de Janeiro (53,10%) e no Espírito Santo (56,37%). Mas perdeu onde não podia perder.

Centro-Oeste. Território bolsonarista sem exceção: Mato Grosso (66,06%), Goiás (59,66%), Mato Grosso do Sul (59,60%) e Distrito Federal (54,28%).

Sul. Também sem exceção. Santa Catarina deu a Flávio 69,42% dos votos, seguida do Paraná (62,58%) e do Rio Grande do Sul (57,84%). Na região, o senador somou 11,4 milhões de votos.

Minas, de novo

Se há um estado que resume a eleição, é Minas Gerais. Lula venceu ali por 50,43% a 49,57%, a disputa mais apertada do país. Menos de um ponto percentual separou os dois candidatos no segundo maior colégio eleitoral do Brasil.

Não é coincidência. Desde a redemocratização, nenhum presidente foi eleito sem vencer em Minas. Em 2022, Lula havia vencido no estado por 50,20%. Quatro anos depois, a margem mineira continua mínima, e continua decisiva.

Mais folgado que 2022. Ainda assim, apertado

Em 2022, contra Jair Bolsonaro, Lula venceu por 50,90% a 49,10%, uma diferença de cerca de 2,1 milhões de votos, a menor da história da Nova República. Desta vez, a vantagem dobrou: 4,4 milhões.

A melhora aparece onde o bolsonarismo é mais forte. Em São Paulo, onde Bolsonaro teve 55,24% em 2022, Flávio ficou em 53,85%. Lula também tomou o Amapá, que havia votado em Bolsonaro, mas perdeu o Tocantins, que havia vencido.

Ainda assim, 3,6 pontos percentuais não é uma vitória confortável. Quase 60 milhões de brasileiros votaram no candidato derrotado. E o eleitorado que deu a vitória a Lula para presidente é o mesmo que, em 4 de outubro, elegeu o Congresso mais à direita desde 1988.

A prorrogação e o pedido de anulação

O domingo teve um capítulo que deve se arrastar pelas próximas semanas. Depois das 17h, horário oficial de encerramento, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, atendeu a um pedido da campanha de Lula, que denunciou falhas no transporte de eleitores, e prorrogou a votação até as 19h nas seções que ainda estavam abertas. As urnas já fechadas não foram reabertas. A campanha de Flávio também havia pedido prorrogação, alegando chuvas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

O TSE chegou a iniciar a divulgação dos resultados, suspendeu a apuração e só a retomou depois das 19h.

Flávio anunciou que vai pedir a anulação da eleição. “Foi algo inaceitável”, disse.

Os números, porém, limitam o alcance da contestação. Segundo dados do TSE, cerca de 34 mil eleitores votaram depois das 17h, o equivalente a 0,027% dos votos computados no segundo turno. A diferença entre os candidatos foi de 4,43 milhões, mais de cem vezes maior. Partidos aliados de Flávio já reconheceram a vitória de Lula.

O que vem agora

No discurso da vitória, Lula atribuiu a virada à “honradez, nacionalismo e democracia” do eleitor, prometeu governar para todos e disse que “esse país só tem que ter civilidade”. Afirmou que foi eleito “para governar com base no respeito à Constituição” e que vai trabalhar com o Congresso escolhido pelo povo.

Vai precisar. O PL chegará a fevereiro de 2027 com 121 deputados e 28 senadores, as maiores bancadas de um único partido desde a Constituição de 1988, e a oposição já fala em mudar a Carta e enfrentar o Supremo. Lula venceu a eleição. A disputa pelo governo começa agora.

Fontes: Agência Senado, CNN Brasil, Poder360, Bloomberg Línea e TSE.

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